Às seis da manhã, soou o despertador.
NGUI, NGUI, NGUI, NGUI...
Soava estranho demais, mas era a única forma de a Helena acordar, porque tinha um sonho muito profundo que apenas aquele som conseguia interromper.
— Filha, estás acordada?
Era a voz da Alcione, a mãe, que soava do outro extremo da casa. A Helena olhou para o João, o irmão, que dormia todo tranquilo. Nem o som daquele despertador infernal o tirava do sonho. Ele tinha a sorte de ter aulas de tarde, enquanto a Helena as tinha de manhã, portanto ela era a que sofria a desgraça de acordar cinco dias por semana tão cedo.
A menina foi tomar o pequeno-almoço e depois tocou o asseio.
— Lava-te bem, hein? —lembrou a mãe —. Tens que cheirar bem antes de entrares na sala de aula.
— Muitos dos meus companheiros fedem, mamã. O Carimbolo cada dia cheira diferente.
— Como assim?
— Sei lá como é que ele faz. Um dia cheira a gato morto, outro a sardinhas em lata, outro a lixeiro, outro a...
— Chega — interrompeu a mãe —, não me interessa como é que cheira o Carambelo...
— Carimbolo — corrigiu a menina.
— Como for. Vai à casa de banho e prepara-te.
Depois de se pentear bem, a Helena quis ver-se bem no espelho. Estava ótima. Ficou a olhar o seu reflexo durante muitos minutos, gostava de se ver.
— Vens já? — soou a mãe ao longe.
A menina interrompeu a sua atividade e correu para a porta da casa. A mãe ia levá-la à escola.
Até seis horas depois, quando a Helena voltou da escola, mas não parecia a mesma menina que tinha saído da casa de manhã. Coçava os braços com total desespero e, por cima, tinha uns ranhos que pareciam cascatas.
— Filha! O que é que te aconteceu?
Mas a Helena nem tinha tempo de responder, correu para a casa de banho e voltou com um rolo de papel higiénico para limpar os mocos, que caíam sem parar. Os dois braços, aliás, estavam completamente vermelhos por causa das unhas da menina a coçar sem parar.
— Suspeito que isto seja alergia — disse a Alcione, quem, sem hesitar, levou a garota para o médico.
Foram diretas para o hospital, até entraram pelas emergências. Felizmente, havia uma alergóloga disponível.
Assim que a doutora viu a criança, disse para a mãe:
— Coloque-a na padiola.
A doutora nem fez perguntas no início. Observou os sintomas, que eram as cachoeiras que saíam do nariz da Helena e a coça desesperada da menina nos seus próprios braços.
Depois, a doutora pegou no seu carnê e começou o interrogatório, que sabia fazer tão bem como um agente da polícia para um suspeito.
— Têm animal de estimação em casa?
— Temos.
— Um gato, um cão, um porquinho-da-índia, um coelho, qualquer um com pelo?
— Não, é uma iguana — disse a mãe.
— Que se chama Margarida — acrescentou a Helena sem parar de lhe sair muco pela cascata.
— Então, que plantas há ao redor da vossa casa?
Foram enumerando as variantes que conheciam, que não eram todas, enquanto a doutora tomava notas.
— A menina tem problemas com algum alimento, por exemplo, com o leite, com o pão?
— Não.
— Então, vamos praticar as provas da alergia. Venham à consulta aqui no hospital daqui a uma semana.
A doutora desenhou uma espécie de tabuleiro no braço da Helena, a qual perguntou com surpresa:
— Por acaso, vamos jogar xadrez no meu braço? Ou três em linha?
— Não, fazemos isto para marcar distintos produtos que podem causar alergia... — explicou a doutora.
— E pode ser que tenha alergia da mamã, ou do papá, ou do João?
— Espero que não...
A Helena abraçou a mãe, não queria que ela fosse a causa da sua alergia, isso sim seria uma desgraça, mas então teve uma ideia:
— Ah, doutora, e não pode ser que tenha alergia à escola? Hoje, quando vim dali, foi que me encontrava tão mal...
— Há pessoas que têm alergia ao giz...
— Mas na minha escola usamos marcadores para o quadro — reconheceu a menina desiludida.
A doutora colocou algum medicamento que aliviasse os sintomas. Para o nariz, foi como se colocassem uma barragem, porque as cataratas cessaram. A Alcione, por acaso, também cortou as unhas da menina para evitar que chegasse até ao osso quando se coçava.
Finalmente, depois de uma semana de espera, a Helena e a sua mãe foram ao hospital para receber os resultados das provas de alergia.
— Isto não tenho nunca visto — disse a doutora. — A menina é alérgica... a si própria.
— Não pode ser... — deixou escapar a Alcione.
A doutora não parava de dar voltas pela sala de consulta. Nem ela, nem nenhum dos seus colegas tinha visto uma coisa parecida. Só podiam explicar que fosse alérgica a alguma secreção do seu próprio corpo.
— E isso tem cura? — perguntou a mãe.
A doutora e a Alcione começaram a dialogar sobre o que a médica tinha pesquisado. Por enquanto, a Helena foi olhar-se num espelho de corpo inteiro que havia na consulta. Via-se bem, apesar das coceiras nos braços.
— Mamã — disse a menina, — achas que posso ter um vestido azul para o meu aniversário, com bordos dourados?
Mal a mãe desviou a vista para a menina, esta começou a coçar todo o corpo com desespero e novamente uma cachoeira de ranhos acudiu ao seu nariz, como se a barragem tivesse quebrado.
— Mamãezinhaaaaaa!
A Alcione e a doutora interromperam a conversa. A doutora retirou o espelho. Colocou-o de costas para a criança. De repente, entendeu qual era a causa verdadeira da alergia:
— A Helena não tem alergia a si própria — anunciou nervosa. — Tem uma alergia ainda mais rara e esquisita.
— Como assim? — perguntou a Alcione.
— Tem alergia ao seu reflexo!!!!
A doutora quis fazer mais provas. Pegou no seu telemóvel e tirou uma foto da menina.
— Olha para a foto — pediu a doutora.
— Não quero — disse Helena, a cobrir os olhos com as mãos.
— Olha, faz favor, é muito importante.
— Escuta a doutora, filhota — pediu a Alcione.
Lentamente, a menina retirou as mãos dos olhos e enxergou a foto.
— Estás pior?
— Não...
— Então já entendi o que se passa. A Helena tem alergia ao seu reflexo em espelho, é dizer, que a sua parte direita seja a esquerda no espelho e ao invés. Mas nas fotos do telemóvel esse efeito pode ser evitado.
— E qual é então a solução, doutora?
— Teremos que pesquisar, mas, por enquanto, só podem fazer uma coisa: se ela se olhar no espelho, tem que ser através doutro espelho, para que os seus lados sempre fiquem no lado correto...