O pior era para o Sol acordar.
O galo, desesperado, tinha medo que não amanhecesse e começava cedo demais a tocar as matinas. O anjo vinha enxotá-lo:
– Cale-se! É cedo...
– É preciso avisar o Sol.
– Eu me encarrego disso.
Mas o galo não acreditava muito no anjo e tinha um pouco de despeito em relação a este ser tão branco, asas leves e capaz de mais vôos. Neste tempo, os galos também voavam e eram todos negros, vermelhos, amarelos. Brancos não havia. E o galo foi até Deus:
– Senhor, venho pedir-lhe uma coisa.
– Fale.
– Eu acho um desaforo que o anjo seja tão branco, tão etéreo e eu vermelho, desengonçado.
– Queres ser branco?
– Quero que haja galos brancos na minha família.
– Acho justo o que pedes. Queres ser o primeiro?
– Mas não quero ser todo branco. Deixe uma parte vermelha, pois esta cor muito me agrada. – Pois bem. Assim seja. Mereces o que pedes, pois és bastante útil.
E Deus tingiu o galo de branco, deixando-lhe uma crista vermelha, conforme ele pedira. A partir daí, o galo começou a desafiar o anjo e não cantava mais de manhã, pois se fatigava em altos vôos até o trono angélico.
Por isso foi castigado. Não voaria mais. Continuaria branco, mas só alcançaria os muros dos quintais para lançar seu canto matinal.
– Bem feito, disse o anjo.
O galo baixou a crista. Deus viu a provocação do anjo e condenou-o ao exílio entre os anjos. Por muito tempo não conviveria com os seres da criação, nem desceria à Terra para passear entre os jardins do paraíso.
O galo castigado, para se vingar, recomeçou a cantar cedíssimo, de tal forma que sempre causava um transtorno no mundo.
O sol, estremunhado de sono, e mal-humorado, espiava, abrindo de leve, a sua janela, e deixando passar um princípio de claridade que manchava as nuvens, os montes, os prados. E foi assim que houve a madrugada.

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